revista de cultura # 45 - fortaleza, são
paulo - maio de 2005
Chico Anysio à beira do riso(entrevista)
João Soares Neto
Francisco Anysio de Oliveira Paula, Chico Anysio, cearense,
cidadão do Rio e do mundo, 74 anos, maior humorista
do Brasil, casado seis vezes, é meu amigo desde
o final da década de 60. Recentemente, batemos
um longo papo sobre seus pais, irmãos, vida,
idéias, Rede Globo, depressão, Ceará,
presente, passado, futuro e muito mais. Fruto dessa
descontração, surgiu a presente entrevista,
misturada com café e sucos e a entrada rápida,
em cena, de sua atual mulher, Malga, que havia sido
mordida no ombro por um mosquito e foi procurar remédio.
[JSN]
JSN - Qual a herança genética que fez
dos filhos de D. Haydée e Oliveira Paula os talentos
que são?
CA - Olhe, João, eu não entendo de genética
e sei, apenas, que nos cavalos PSI (puro sangue inglês)
ela é perfeita e total. Os filhos da D. Haydée
têm um lado artístico pela parte dela,
que tocava piano, declamava e, se tivesse nascido em
1980, com certeza seria, no mínimo, uma bela
atriz - e atriz bela. Pelo lado do meu pai, eu herdei
o senso de humor, porque o Coronel Oliveira Paula era
muito engraçado e, no conviver diário,
foi a pessoa mais engraçada que eu conheci, porque
ele não “fabricava” uma piada, ele
a fazia com a maior naturalidade e tranqüilidade.
O Elano é quase um gênio e a Lupe só
não foi a grande atriz que merecia ter sido,
porque por 30 anos o marido dela a proibiu de representar.
O Zelito é um cineasta e produtor cinematográfico
dos melhores e não sei de quem ele herdou isto.
Mas temos, todos, uma coisa em comum: somos pessoas
muito decentes.
JSN - A genialidade compartilha o DNA com muito trabalho
e estudo, ou não?
CA - Genialidade é uma palavra muito usada e,
por esta razão, mal usada, nos dias de hoje.
Acho que a palavra “gênio” só
se aplica a um homem como Sabin, que inventou uma gota
que tirou dos pais do mundo inteiro um grande medo,
a milagrosa vacina que evita uma doença tristíssima
para as crianças. Tudo, então, é
conseguido com muito trabalho e, obviamente, muito estudo.
Nunca acreditei em inspiração e sempre
defendi a transpiração. O meu caso - humorista
- é muito especial porque, assim como os poetas,
eu não paro de pensar e para tudo que olho, eu
olho procurando o que posso tirar de graça daquilo
que estou vendo. Tenho idéias que partem que
uma frase que escuto, uma pessoa que vejo, uma situação
que vivo. Se quiser chamar esta idéia que tenho
(porque eu sempre a procuro) de inspiração,
que assim seja. O estudo - como as viagens e a vivência
- me garante uma cultura geral interessante, que me
permite ampliar o meu campo de trabalho. Ele é
de importância fundamental.
JSN - Entre a firmeza e a compaixão de D. Haydée
e o jeito agridoce do Cel. Oliveira Paula, como se dividia
o seu coração?
CA - Dividia-se ao meio. Minha mãe era uma santa
que muitas vezes conversou com Jesus e outras vezes
convidou Nossa Senhora a sentar ali ao seu lado, na
cama. Meu pai nasceu fora de época. Era um grande
batalhador, um homem sem estudo mas com um talento incomensurável.
Ele deveria ter nascido depois da segunda guerra, quando
começou o grande impulso de progresso do mundo.
É insuportável saber que meu pai morreu
antes do fax, da xerox, do computador, do telefone celular.
Sua empresa de ônibus (que se acabou num incêndio
sem estar no seguro) era exemplar. Nunca mais se viu
outra sequer parecida, neste pais. Minha mãe
tinha paciência com ele e, melhor ainda, o perdoava.
JSN - Elano Paula, seu irmão, como poderia ser
descrito?
CA - Elano é uma das pessoas mais brilhantes
que eu conheço, além de ser quem mais
entende de habitação e poupança
neste país. Sempre foi de grande competência
e tirocínio absolutamente certo. Se errou, na
vida, errou tão pouco que nenhum desses prováveis
erros em nada o atrapalhou. Foi sempre correto com seus
empregados e, mais ainda, se isto é possível,
com seus amigos. É um homem que não nega
uma ajuda se ela estiver ao seu alcance e tem um grande
prazer em colaborar com um amigo que tenha à
sua frente algum embaraço. Ele sabe dos becos
e das vielas da vida e por eles caminha com a mesma
desenvoltura com que anda pelas avenidas e viadutos.
JSN - .Lupe, sua irmã mais velha, casada com
médico famoso, optou por ser atriz. Você
acredita que a arte de representar é tão
forte quanto os laços afetivos?
CA - No caso da Lupe eu até me arriscaria a dizer
que o casamento dela só não foi um grande
desastre porque dele nasceram três mulheres admiráveis;
mas o marido dela foi um grande corte na sua vida. A
Lupe, no concurso que fizemos, na Rádio Guanabara,
no qual eu tirei o sétimo lugar, ela tirou o
terceiro e era, depois da Fernanda Montenegro, o grande
trunfo do Alfredo Souto de Almeida, diretor da rádio.
A proibição do seu noivo, então,
foi cruel. Ela sofreu demais esta proibição,
ainda mais ao ver que enquanto o tempo passava, mais
certo eu dava. Nós todos na família, tínhamos
como certeza a sua separação, mas ela
continuou ao lado dele e junto a ele está agora,
no pior momento da vida, pois ele está esclerosado
e cego. Um grande karma. A arte de representar que tanto
ele proibiu é, hoje, quem garante as despesas
da casa. Minha irmã é uma vencedora.
JSN - Zélito Viana, o caçula, cineasta
acima dos críticos, teria tido sucesso em Hollywood
se tivesse largado tudo por aqui?
CA - Não. O Zelito é um cara muito bom,
profissionalmente. Foi o produtor dos sonhos do Glauber
Rocha e dirigiu filmes admiráveis, como Os Condenados
e Villa Lobos. O problema é que ninguém
muda o temperamento de ninguém e assim como eu
sou 220 volts, o Zelito é 12 volts - nem dá
choque. Eu faço seis, sete coisas ao mesmo tempo,
o Zelito faz uma da cada vez e sem a menor pressa. Hollywood
é um campo de batalha e lá o Zelito morreria
no primeiro combate, porque ele sequer pegaria numa
arma. Eu o levei para a TV numa ocasião, para
dirigir um programa que eu fiz em 1981, chamado Chico
Total. O programa era mensal e, mesmo assim, ele achava
um absurdo de tanto trabalho. Hollywood nunca poderia
ser a praia dele.
JSN - Lília, a irmã que partiu, era cearense
desterrada, paraibana compulsória ou carioca
assumida?
CA - Lilia foi uma cearense desterrada que nunca assumiu
a Paraíba ou o carioquismo. Ela odiava morar
em João Pessoa, mas o marido era médico
na Paraíba, tinha lá em João Pessoa
a sua clientela e ela - mãe de 3 filhos paraibanos
nada podia fazer a não ser suportar a barra para
ela pesadíssima de morar longe da família.
Isto a levou a uma quase loucura. Ela morreu por causa
disso, sofrendo de uma esquizofrenia compulsiva. Foi
minha primeira fã, minha primeira platéia,
minha grande incentivadora. Veja que minhas irmãs
não se deram bem nos seus casamentos.
JSN - Você seria um simples que se tornou sofisticado?
CA - Para com isso, João. Quem é sofisticado?
Eu sou a coisa mais simples do Brasil. Mais simples
do que eu só… só… o quê?
Arroz com feijão - que é o que eu como
todos os dias.
JSN - Quem nasce em 12 de abril, um ariano do terceiro
decanato, pode ser definido ou é indefinível?
Dá para explicar?
CA - Eu, de vez em quando, escrevo coisas que nem sei
onde vou usar, porque considero que escrever é
um exercício diário. É preciso
escrever todos os dias, nem que seja para jogar fora.
Mas posso usar aqui, para me definir o que andei escrevendo
um dia desses. Vou colocar entre aspas. “Eu sou
alto, forte, feio, fraco, baixo, lindo, louco, certo,
esperto, errado, pilantra, mestre, miserável,
estroina, bobo, bêbado, lúcido, lépido,
lento, lerdo, Márcio, Marlon, Melchior, misto,
místico, módico, caro, barato, um barato,
um Baretta, safado, safo, sifu, mifu, môfo, moço,
mouco, velho, filho, falho, féla, filante, ex-fumante,
franco, Frank, Fink, assim, assado, assente, ausente,
gente, gentinha, gentil, gentalha, malandro, sabido,
sábio, sabiá, sabe-se lá, sei lá
se é, sei lá se sou, mas quem não
é? Salvado, Sabino, rabino, rabada, de nada,
de tudo, entrudo, contudo, com tudo, contido, irado,
Iran, Ivone, calado, falante, falhante, perfeito, prefeito,
pé feito, mão feita, cuca fresca, cara
de pau, rabo de saia, moleque de recado, Maria-vai-com-as-outras,
crédulo, cético, cínico, válido,
inválido, lavradio, fugidio, cearense, mineiro,
paulista, carioca, argentino, fulano, beltrano, sicrano,
engano, eslavo, batavo, centavo, real, fatal, final,
pesado, pensado, peso médio, meio peso, meio
dólar, meio cruzeiro, palmeiras, américa,
flamengo, dengo, sem quengo, sem rango, zôrro,
zôrra, zona, lona, lima, ferro, pedaço
de pau, pedaço de pano, pedaço de rolha,
bolha, trolha, trouxa, treco, troco, ator, atôa,
uma boa, uma graça, boa praça, vinho velho,
velho moço, moço bom, bom partido, partido
de cana, cana brava, brava luta, luta democrática,
dia noite, açoite, azeite, óleo, olho,
nariz, garganta, oto, rino, laringo lojista, balconista,
artista, (inclusive) …dependendo do personagem
que eu interprete. No fim eu sou um covarde, que se
esconde atrás de várias caras por temor
de me expor ou um mal caráter que, em vez de
se dar ao trabalho, prefere por vários infelizes
para trabalhar no seu lugar. Mas faço questão
de ser a música do Belchior porque nasci num
engenho, com o vento agitando o verde marinho dos pendões
da cana, num tempo em que havia galos, noites e quintais.
Eu sou o quintal, de pé no chão, subindo
em mangueira, escanchado em cavalo de madeira, pião
no chão, pião na unha, pião no
mundo, rodando, rodando, rodando, esperando uma palma
de mão que o sustente, pelo menos por algum tempo
e somente agora encontrei. Fui buscar longe: no Rio
Grande do Sul”.
JSN - O distanciamento crítico lhe permite ver
o Ceará com olhos reais. O que é o Ceará
real para você?
CA - O Ceará é importante demais para
mim, porque ele representa a minha infância, o
momento melhor da minha vida, quando eu era filho de
rico, tinha um rio em Maranguape que parecia correr
somente para mim, uma casa onde havia o quarto onde
eu nasci. Os oito primeiros anos da minha vida foram
deslumbrantes, pois em Maranguape ou no quintal da nossa
casa no Benfica, eu brincava de cabeçulinha,
gol-a-gol, rodava pião e nunca o meu pai ou a
minha mão encostaram a mão em mim, num
gesto de castigo. Foi no Ceará que eu aprendi
a ler sozinho e tive o cuidado de uma babá chamada
Teonilha a quem devo os primeiros carinhos e que por
me amar foi mandada embora - não deixou que me
enganassem, fazendo-me comer uma carne que eu não
gostava. Eu cresci no Rio de Janeiro, mas ai, tudo já
foi bem diferente. O bom da vida eu tive nos oito anos
de Fortaleza e Maranguape.
JSN - Sua admiração por Renoir deu cor
e sentido às suas tintas?
CA - Quem dera, João, que eu pudesse ter, no
que pinto, qualquer mínima coisa de Renoir. Ele
é um dos meus ídolos, como Velásquez,
Van Gogh, Sérgio Telles e Matisse. Minhas tintas
tiveram, no início, o sentido de um hobby. De
uma hora para outra eu percebi que já tendo vendido
mais de mil quadros, aquele hobby já era um trabalho.
Segui nas minhas marinhas e vendi mais dois mil. Hoje
mudei meu estilo. Minha pintura hoje é fauve,
um movimento nascido pelas telas de Matisse e seguido
por Derain e alguns outros, gerando, afinal, o expressionismo
alemão de Kirchner, para onde certamente acabarei
caminhando. O sentido final das minhas tintas é
que elas sejam o emprego da minha velhice.
JSN - Você concorda com Nietzsche quando ele diz:
“No amor e na vingança, a mulher é
mais bárbara que o homem”? Qual a sua versão?
CA - No tempo em que Nietzsche viveu, isto deve ter
sido verdade, mas apesar de Nietzsche ter sido um cara
genial, o tempo passou e a vida mudou de cara. Eu escrevi
um livro (O Analista) onde defendo uma tese: o que Freud
diz não tem mais a menor validade porque o tempo
é outro; Freud nunca soube de uma curra, de gente
fumando maconha, de um canal de sexo explícito,
de duas mulheres se casarem com o beneplácito
da Rainha da Inglaterra e o mesmo acontecer com dois
homens com o “ de acordo” da Rainha da Holanda;
Freud baseou suas teorias num tempo em que as pessoas
andavam de charretes e os amantes não iam muito
além de uma troca de bilhetes. A mulher de hoje
é até menos mansa do que a de trinta ou
quarenta anos passados, mas ainda não é
bárbara como os homens. Eu, por exemplo, nunca
soube de UMA serial killer. A minha versão é
de que no amor e na vingança a mulher é
doce.
JSN - A sua frase “o grande passeio da vida é
ficar em casa” é reflexo do tempo vivido
ou a consciência do tempo dissipado? Filhos, dá
para definir?
CA - É fruto da experiência da vida. Eu
sempre digo que a única vantagem de envelhecer
é saber mais. Não há uma segunda.
Hoje, por saber mais, eu já descobri a bobagem
que é perder uma noite numa boite. Aprendi a
ter paciência e deixar para ver o filme de grande
sucesso que está no cinema, daqui a dois meses
no cinema da minha casa que tem surround e uma tela
confortável. Eu já estou quase preferindo
ver meus cavalos correndo na tela da minha TV, sem precisar
ir ao prado. Vou ao prado apenas para tirar uma foto
com os que vencem, porque a corrida eu vejo na varanda,
através da televisão. A consciência
do tempo dissipado é uma contingência natural
da vida. Quanto à definição de
“filhos”, que você me pede, eu confesso
que não tenho capacidade de o conseguir. Filho,
no fim de tudo, é algo que só sabe quanto
é bom quem tem. Mas os filhos têm, ao mesmo
tempo, um problema enorme: eles crescem. E quando os
filhos crescem viram nós.
JSN - Chaplin, que parecia mais triste que a maioria
das pessoas, dizia que “o humor pode ser tudo,
até mesmo engraçado”. Qual a essência
existencial desse pensamento tão conhecido seu?
CA - Não somente muito conhecido meu como fui
eu quem o divulgou. Eu concordo inteiramente com isto,
porque na minha opinião, o dever número
um do humor não é tirar um sorriso de
alguém, mas alertar a muitos para os erros da
vida. Infelizmente eu não tenho poderes para
corrigir o que há de errado, mas tenho o dever
de denunciar, de enfiar o dedo numa ou noutro ferida,
de desmascarar um ou outro patife. É preciso,
no entanto, um grande cuidado: não se pode fazer
uma piada sobre uma hipótese, mas somente sobre
o que é real. Se eu brinco com algo errado mas
que é real, ninguém reclama da minha graça
e todos ficam sabendo que aquilo existe. Quanto à
tristeza de Chaplin, ela fazia parte do todo, porque
Chaplin era também um humorista.
JSN - Você, como escritor de quase 20 livros,
leva a Academia Brasileira de Letras a sério?
CA - Eu já estive semi-eleito. Uma ocasião,
com a ajuda do Arnaldo Niskier, eu tinha 19 votos garantidos
e me faltavam apenas dois para que fosse eleito para
a Academia Brasileira de Letras um representante do
Humor Brasileiro. Quando eu liguei para o meu amigo
João Ubaldo Ribeiro, ele me tirou a entrada para
a Academia da cabeça, com uma frase: “Chico,
você vai ter que ir a velório de gente
que nunca viu na vida e um sem número de pessoas
vai passar a torcer pela sua morte, para entrar na sua
vaga”. E ainda me falou que até aquele
dia estava arrependido de ser um imortal. Mas eu a levo
a sério. Se vez em quando dou uma balançada,
como, por exemplo, quando Marco Maciel foi eleito.
JSN - Você já leu Paulo Coelho? Se leu,
o que pensa da escritura dele?
CA - Li O Alquimista e achei interessante. Comecei a
ler o segundo livro, cujo título agora me foge
e achei que ele já estava andando por um caminho
que o alquimista lhe abrira. Daí em diante ele
passou a ser chamado de Mago e acho que até mesmo
a se sentir como sendo um. Então eu não
mais me interessei em ler seus livros, mas o respeito
muito, porque ninguém pode deixar de respeitar
um homem que é autor do livro mais lido no mundo
em 2003. Por pior que este livro pudesse ser, ele esteve
nas mãos de milhões de pessoas, com tradução
para 53 idiomas. Não falo mal do Paulo Coelho,
a quem admiro desde as letras que fazia para meu amigo
Raul Seixas e ele é, queiram ou não, o
mais bem sucedido escritor brasileiro. Não digo
melhor, digo “mais bem”, que é o
que realmente define. Vender cem exemplares de um livro
já é uma beleza, imagine vender 7 milhões,
ou muito mais do que isso.
JSN - Você já sonhou como se fosse um dos
seus 400 tipos? Se não sonhou, como imagina que
seria o sonho?
CA - Como eu não poderia sonhar com os meus tipos,
se todos eles, para mim, são reais? Eu sonho
muito com muitos deles. Eles participam como se estivessem
todos ali, ao meu lado, num mesmo show em preto-e-branco.
O grande defeito de sonho é que ele, como os
filmes “cerebrais” ou não terminam
ou não terminam bem - o que ainda é pior.
Mas já tirei esquetes de sonhos que tive com
meus personagens.
JSN - Quando a deprê bate e o espelho fica esquisito,
você deixa a barba por fazer ou encara os pensamentos
recorrentes?
CA - A deprê faz parte da minha vida há
18 anos e já convivo com ela numa boa. Tomo os
remédios que colocam no meu organismo os sais
que faltavam - e por esta razão a deprê
bateu - e vou em frente, porque não posso parar.
Só na estréia dela foi que eu deixei a
barba por fazer e fiquei 12 dias sem sair do quarto.
Agora ela já é de casa, já nos
chamamos de você e não mais de “meu
senhor” ou “minha senhora”.
JSN - Você leva análise a sério?
Freud ou Lacan?
CA - Já fiz análise durante anos. Lacan.
JSN - “Quem tem medo de” Chico Anysio na
Globo?
CA - Atualmente, ninguém. Há alguns anos
é possível que um ou outro tivesse.
JSN - Você acredita em karma? Se acredita, qual
o seu?
CA - Sim, eu acredito. Não devo ter um apenas,
mas vários. Ser o cara que lança novos
comediantes - o que não deixa de ser “o
cara que lança novos concorrentes”, deve
ser um deles; também deve ser meu karma isto
de ser o cara que dá oportunidade a quem já
não tem nenhuma. Mas adoro os dois. Consertar
mulheres erradas já foi um karma, do qual consegui
me livrar a algum tempo. Mas, pensando melhor, nada
disso é karma, é apenas uma coisa que
pede um pouco de calma. Paciência, melhor dizendo.
JSN - Os artistas-escadas da Escolinha do Prof. Raimundo
foram, em sua maioria, gratos a você?
CA - Sim, foram. E, ao mesmo tempo, eu sempre fui muito
grato a todos eles, que, na verdade, eram os que faziam
o show. O Professor Raimundo foi, sempre e tão
somente, um “escada”. Eu era o cara que
preparava para que eles dessem os desfechos. Eram eles
que brilhavam, eu nunca passei de um coadjuvante. O
negócio é que eu adoro ser escada. Quantas
vezes eu vi uma piada funcionar dez vezes mais do que
eles próprios esperavam, só porque eu
havia feito uma preparação beleza!
JSN - O que é a ingratidão? Como reage
a ela?
CA - Ingratidão é o que há de pior
na vida. Eu sou um homem sem inimigos e sem maiores
rancores. Perdoar é o meu esporte favorito e
o mal que alguém me faz hoje, depois de amanhã
já é um passado longínquo. Mas,
desafortunadamente, eu ainda não consigo esquecer
uma ingratidão, porque esta praga desmancha,
quando aparece, algo de muito bonito que se fez. A ingratidão
é uma enorme onda de lama que entra por uma casa
branca e limpa, toda forrada por um carpete azul claro,
com móveis leves e habitada por gente boa. Esta
onde de lama varre o que há na casa, destrói
as coisas e, muitas vezes, também as pessoas.
Eu não aprendi ainda a reagir à ingratidão.
Estou tentando aceita-la como um ponto de fraqueza no
caráter de alguém a quem se quer bem,
porque a ingratidão só dói quando
vem de alguém a quem fizemos o bem ou queremos
bem.
JSN - Nizo Neto,seu filho, parece sofrer o peso do nome
e a incompreensão dos homens da platinada, mas
é um grande talento. Se você tivesse que
fazer a abertura de um “book” dele, o que
escreveria?
CA - Nizo Neto poderia ter sido um dos melhores galãs
jovens do Brasil, se lhe tivessem dado as chances que
merecia. Hoje, com o cabelo começando a ficar
branco, está preparado para ser um belo “central”,
sem contar que tem toda a sabedoria e o talento de um
comediante, o que o faz capaz de representar papeis
cômicos com grande competência.
JSN - Você concorda ou discorda de Shakespeare
quando “Em noite de Reis”, um personagem
dele diz: “Com que facilidade os impostores imprimem
suas formas insinuantes no coração de
cera das mulheres”? Um humorista é um impostor?
CA - A arte é uma impostora. Uma deliciosa impostora.
Nós que fazemos arte, fabricamos delícias
e angústias, ódios e amores, matamos leões
e corremos de gatos, criamos mentiras e as fazemos tornarem-se
verdades. Tudo em nome da arte é possível,
porque a arte é ficção e com a
ficção não há quem possa.
Quando a ficção não dá certo,
é porque é realidade.
JSN - Você que também é cineasta,
acredita que a frase da L. Severiano Ribeiro, “cinema
ainda é a maior diversão”, vai varar
todo o século XXI?
CA - Digo que sim, sem nenhuma dose de certeza, mas
não tenho coragem de negar. Do fim da segunda
guerra até hoje, nestes 54 anos, o mundo progrediu
dez mil vezes mais do que em todos os anos anteriores.
Veja o número sem fim de coisas que foram revolucionárias
há poucos anos e hoje já nem existem,
como o LP, o pick-up, a rádio-foto, o próprio
fax está nos estertores, assim colocado pelo
advento do e-mail. Como serão as coisas dentro
de trinta ou quarenta anos se hoje, com 50 pessoas e
um computador, faz-se a cena de um estádio lotado?
O meu grande medo é que esses caras que fazem
milagres e misérias com a computação
gráfica encontrem um jeito de substituir o ator.
JSN - Capistrano de Abreu, outro maranguapense ilustre,
alertava na década de 20 do século passado
que os morros cariocas, se não fosse resolvida
a sua ocupação, seriam o maior problema
do futuro do Rio. Você acredita que há
saída para a violência no Brasil?
CA - Ah, João… o Rio de Janeiro é
a maior cidade litorânea do mundo e, ao mesmo
tempo, a única onde os pobres moram nas encostas
e os ricos embaixo. Os morros já foram cantados
pelos maiores compositores e cantores do Brasil, porque
98% dos habitantes do morro são pessoas boas,
trabalhadores, gente que ganha pouco e por esta razão
só achou este lugar para morar. “Este lugar”
já foi um barraco, de madeira, tendo zinco como
telhado. Hoje os morros estão ocupados por casas
pequenas e mal feitas, mas de tijolo e com telhas caneladas.
Duas coisas faltam a estas casas: emboço e uma
pintura por fora, porque o mais elas têm. A luz
vem de um gato roubado do poste, a água de um
gato roubado do cano da rua, a tv a cabo de um cara
que comprou e divide (roubando) com 19 ou 20 amigos.
As favelas, que quando menores eram até bonitas,
hoje são enormes e nelas se abrigaram os traficantes,
o que fez com que elas se tornassem o pavor que hoje
são. Capistrano de Abreu foi genial na sua previsão,
mas a violência não nasce na favela, no
morro do Rio. A violência nasce no cara que planta
a coca, no que a compra, no que a refina, no que a prepara,
no que a vende e, principalmente, no que a consome,
porque se ninguém consumisse, o tráfico
terminava.
JSN - Maior de 70, o que espera para os menores de 18
anos no Brasil?
CA - Ei, senhor, que perguntinha danada! Eu ainda tenho
dois nesse time, mas moram em New York e vivem noutro
tipo de vida. Dos que estão nesta faixa e moram
no Brasil, eu espero que haja uma mudança no
ensino e eles passem a ter prazer em ir à escola,
em vez desse ódio de hoje; espero, também,
que eles troquem o modismo pelo realismo e a realidade
é azul, enquanto o modismo é vermelho.
Eles têm que entender que esta música abjeta
de hoje não lhes dará direito a recordações
no futuro, como nós temos com os boleros e as
canções do Chico e do Caetano. Eles têm
que dar ao amor a importância que o amor tem,
em vez de utilizarem essa bobagem de “ficar”,
porque “ficando”, nada fica. A vida é
curta e passa depressa. Por esta razão, temos
que a viver devagar, curtindo cada dia, cada hora, cada
momento. A juventude vive depressa e quem precisa de
pressa sou eu que já vou fazer 75, não
os que acabaram de fazer 17.
JSN - Lula, que já foi “sapo barbudo”,
é hoje o “hit” das festas finas de
São Paulo. Quem mudou: Lula ou a sociedade paulista?
CA - Lula mudou. O poder o fez outro homem. Lula cometeu
um grande erro (até inexplicável, porque
ele já foi Deputado Federal), que foi pensar
que o presidente manda. O presidente não manda
nada. O presidente VETA. Este é um direito do
Presidente da República: vetar. Quem manda são
os deputados e os senadores. Por tirar deles o direito
de mandar, governando com decretos, Fernando Collor
foi tirado do poder. Lula viu isso ao tomar posse. Então,
por ser muito inteligente, entregou à direita
o comando financeiro e ficou com o social. Ele deu um
jeitinho de esquecer o PT e ficou bem com os dois lados.
A sociedade paulista o admite porque ele é presidente.
Quando seu mandato terminar, ele não terá
a mesma aceitação, porque ele é
nordestino e pobre. Isto, para paulista, é a
mesma coisa que dois pecados. Lula entrou pobre para
o cargo e dele sairá pobre, porque é um
homem honesto. A sociedade paulista é a pior
do pais, porque se julga a melhor, a mais rica, a mais
sábia, mais informada. Mas, comprovadamente,
ela é apenas a “mais pior”.
JSN - Você acredita que a sucessão do Grupo
Roberto Marinho foi planejada, tem céu de brigadeiro
ou vem tempestade pela proa?
CA - Não precisava ser planejada, porque sempre
foi sabida: os sucessores são os três filhos:
Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho
e José Roberto Marinho. Eles três resolvem,
entre eles, a quem caberá o que, neste império
que está nas suas mãos. Que Deus os ilumine.
JSN - E por falar em sucessão, como você
imagina que será a sucessão de Silvio
Santos?
CA - Não dá para imaginar, porque o Silvio
tem seis filhas e me parece que a única que se
interessa pelo SBT e se julga competente o bastante
para assumir o comando é uma que se chama Silvia
e é adotada. Não sei qual será
o comportamento das outras cinco e mesmo o da senhora
dele, D. Isis, diante de uma impossibilidade de o Sílvio
seguir no comando, seja lá por qual motivo for.
Mas penso que o Sílvio, brilhante e inteligente
como é, já deve ter decidido isto.
JSN - Quem foi maior: Oscarito ou Grande Othelo? Por
que?
CA - Para a maioria, Oscarito. Para mim, Grande Othelo.
Eu gostei muito do Oscar, escrevi filmes para ele e
fui quem escreveu o programa que o levaria para a TV.
O programa acabou não sendo feito porque ele
tinha muita dificuldade para decorar. Ele foi maravilhoso.
Mas eu sempre gostei dele muito mais no teatro de revista
do que no cinema. Cinematograficamente eu sempre o achei
over, super representando; ele era teatral, no cinema.
Grande Othelo era um ator completo. Brilhante, tanto
no teatro de revista como no cinema, em chanchadas ou
em papeis dramáticos. “Amei um Bicheiro”
é um belo trabalho de ator do Othelo. Ele também
foi brilhante do rádio. Trabalhou dois anos comigo,
na Rádio Mayrink Veiga, e dividiu a cena com
Zé Trindade, Brandão Filho, Nancy Wanderley,
Antonio Carlos, Matinhos… todos os bambas daquela
época. Nota dez para o Othelo. Para o Oscarito…
oito e meio.
JSN - Nelson Rodrigues, um frasista de qualidade, dizia
que “a morte é anterior a si mesma. Começa
antes, muito antes. É todo um lento, suave, maravilhoso
processo”. Como você encara a morte?
CA - A morte é a única bobagem comprovada
da vida. A gente nasce com uma certeza única:
a de que vai morrer. E nos surpreendemos quando alguém
nos dia que Fulano morreu. Ao trocar cumprimentos, muita
gente diz: “vai-se vivendo”. Mentira. Vai-se
morrendo. Morremos um pouco a cada dia. No Japão
já existe a geriatria pediátrica, o que
é uma loucura absurda. Mas tem o maior sentido,
porque um átimo de segundo após nascer,
aquele ser começa a morrer. Eu encaro a morte,
então, como algo do qual ninguém foge
e só espero que minha morte não venha
por falta de ar. Eu tive embolia pulmonar e escapei
porque, fora o meu pulmão, meio comido pelo infame
cigarro, tudo meu é zero quilômetro. Eu
sei o que é você puxar o ar e nada vir.
Achei terrível quando li que dentre aqueles portugueses
assassinados em Fortaleza, no pulmão de um encontraram
areia; esta areia entrou quando ele, ainda vivo, puxou
um pouco de ar pela derradeira vez. Nelson tem razão
quando diz que “é todo um lento e suave
processo”, mas está erradissimo quando
o define como maravilhoso. Até se pode achar
que é perfeito, mas maravilhoso, nunca.
JSN - Você votou no Ciro na eleição
passada? O que é um voto?
CA - Votei e disse para ele quando ele perdeu a eleição.
Telefonei e disse: “Ciro, você perdeu a
eleição quando beijou a mão do
ACM. Ninguém beija a mão de um canalha
impunemente”. Ele me falou que havia beijado em
respeito à idade dele etc., mas o fato é
que beijou e o Garotinho no primeiro debate soltou isto
no ar, fazendo com que o pais inteiro soubesse e não
apenas os que haviam visto a foto e o C iro depois fechou
a tampa do caixão ao dizer que a mulher dele
só servia para dormir com ele. Não foi
legal. Mas o Ciro é jovem e ainda será
nosso presidente. Gosto demais dele e torço por
ele como se ele fosse mesmo de Sobral. Entre ele e o
Tasso eu gosto mais dos dois. O voto é o único
direito real de um cidadão democrático.
Através dele eu não posso dizer quem vai
comandar meu país, mas certamente meu voto ajuda
na sua escolha. Tenho mais de setenta anos e já
estou desobrigado de votar, mas, mesmo assim, eu voto.
Morei nos Estados Unidos dois anos e lamentei não
poder participar da eleição do prefeito
de Westport, Connecticut - a minha cidade lá.
JSN - Nova Iorque é apenas Manhattam, as tiradas
do Woody Allen, os teatros e restaurantes, ou tem uma
alma própria em todos os seus distritos?
CA - Nova Iorque é tudo que você citou
e mais ainda: ela é uma grande metrópole
sem dono. É a única cidade do mundo onde
você pode parar numa esquina e ficar falando mal
dela o quanto quiser que ninguém vem tomar as
dores dela. Sabe a razão? Porque ninguém
nasce em NY. As pessoas nascem em outros estados, outras
cidades, outros países e depois vêm morar
em NY. Só Woody Allen nasceu lá.
JSN - O que é cidadania?
CA - Não sei. Isto é coisa que temos que
perguntar ao Lula, porque é o seu grande e principal
assunto.
JSN - Estar feliz já é grande acontecimento?
Por que?
CA - Ora. Estar feliz é mais do que um grande
acontecimento: é a glória. Um grande acontecimento
é acordar.
JSN - Se tivesse o direito mágico de mexer na
cabeça de George W.Bush o que faria?
CA - Lavaria as mãos depois com querosene. Não
sou republicano e a eleição dele foi roubada.
O presidente verdadeiro dos Estados Unidos deveria ter
sido o Al Gore. A eleição do Bush foi
uma sórdida manobra do governador da Flórida,
irmão dele, que inventou um tipo de voto complicado
para uma cidade onde 98% dos habitantes são aposentados
e todos eles democratas. Pois todos os votos desta cidade
(não estou conseguindo lembrar o nome dela, fica
bem ao norte do estado) foram anulados. Estes votos
fizeram a diferença. Houve manobra também
nos votos das pessoas de fora do país. A eleição
foi tão suja que o resultado só foi sabido
mais de quarenta dias depois. Gostei muito de uma frase
do Fidel Castro: “Por isto é que eu não
faço eleição; não sei fazer”.
George W. Bush foi um grande erro. Mas, segundo Ruy
Barbosa, “cada povo tem o governo que merece”.
Mas mexer naquela cabeça… ainda que ficticiamente,
me dá um certo nojo.
JSN - Nascer no Ceará foi destino, estigma ou
graça?
CA - Uma graça do destino. Agradeço seguidamente
este presente da vida. Eu duvido que haja alguém
que ame mais do que eu o fato de ser cearense.
JSN - A Victoria, em meio a tantos filhos homens, foi
recebida como rainha, uma graça e um coroamento
de vida. Se você fosse uma pitonisa arriscaria
uma futura profissão para ela? Seria uma economista
com humor ou uma humorista econômica?
CA - É difícil imaginar qual virá
a ser a sua profissão, porque ela hoje, com nove
anos de idade, só nos deixa imaginar que venha
a ser uma princesa, seguindo a trilha da Grace Kelly.
Ela, de acordo com o pensamento atual da juventude,
tem a possibilidade de se transformar numa modelo porque
será, sem a menor dúvida, uma moça
de boa estatura e muito magrinha.l Quanto ao perigo
de se tornar economista, ele não existe e acho
que também está eliminada a chance de
ser uma humorista - ainda que econômica. Eu só
quero que a Victoria seja feliz, ao crescer. Talvez
ainda um pouco mais do que ela já é hoje
em dia. Sua felicidade não é maior porque,
ao que me parece, ela gostaria de morar no Brasil. Eu
não movo uma palha em favor disto, porque sei
que ela está tendo uma educação
muitos furos acima da que teria aqui.
JSN - Você se considera um homem exitoso ou valioso?
CA - As duas coisas. O fato de ser nordestino e ter
chegado ao ponto que cheguei é um gol de placa,
porque nós sabemos das barreiras que os nordestinos
têm que transpor no decorrer da vida, ainda mais
quando são dosque vão pata o Rio ou São
Paulo, onde a discriminação é total.
Eu sou um cara muito feliz por ter conseguido estar
aqui, sendo conhecido até pelos índios
e tendo muita gente gostando de mim e agradecida pela
alegria que lhes dei durante todos esses anos. Sou valioso,
também, porque me fiz advogado de defesa dos
pobres, dos infelizes, dos sem teto, sem água,
dos retirantes, dos favelados, dos bandidos, dos presos,
dos doentes, dos miseráveis. Eu trabalho para
as classes C,D e E e quando encomendo uma pesquisa ao
Ibope peço que elimine as classes A e B porque
na hora do meu trabalho, a classe A está em Angra
e a classe B no restaurante Antiquarius. Rico, nos meus
programas, não brilha, porque o brilho é
do pobre. Isto me faz um cara valioso. Sem vaidade,
no entanto.
João Soares Neto (Brasil, 1942). Escritor.
Autor de Microcontos (2000), Sobre a Gênese e
Caos (2002), e Capistrano, por quem e para quem não
o conhece (2003). Entrevista realizada em janeiro de
2004. Contato: jsn@fortalnet.com.br. Página ilustrada
com obras do artista Nicolau Saião (Portugal).
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