A erosão das instituições
e do Judiciário
O desiderato de satanizar o Judiciário a partir
de suas falhas ou de delito de um de seus componentes
é antigo e teve um dos seus pontos mais marcantes
no caso do juiz Nicolau, insistentemente veiculado nas
redes nacionais, instantâneas criadoras de santos
ou de demônios. Por pertinente ao tema e para
melhor compreensão, dou a palavra ao notável
jornalista brasileiro Carlos Chagas, em artigo veiculado
na Imprensa local, em 20/06/2000.
“Torna-se cada vez mais explícita a tentativa
das elites globalizantes de erodir as principais instituições
nacionais. Do Poder Judiciário ao funcionalismo
público, do Congresso às Forças
Armadas, da Previdência Social às universidades
públicas e a Constituição, todos
esses pilares de sustentação da sociedade
organizada enfrentam obscena blitz, na qual a mídia
exerce papel fundamental, mas não é a
fonte primária. Como mola-mestra e fator maior
de propulsão estão os altos comandos globalizantes,
lá fora, com seus acólitos e esbirros,
aqui dentro”.
“Fica muito simples destrinchar a equação.
Será desmoralizado tudo o que é público.
Conseguirão impor suas diretrizes fundamentais
de transformar o Brasil numa simples colônia dos
interesses das potências ricas”. “Continuam
enfiando fundo o punhal da desídia na Justiça
brasileira. Porque dois ministros do Superior Tribunal
Federal é uns tantos do Tribunal Superior de
Justiça (está assim) aceitaram participar
de um congresso no exterior, em nome da Associação
dos Magistrados, cai o céu sobre o Judiciário.
A reunião teve o patrocínio de entidades
privadas e, por isso, os ministros tornam-se réus
de crime hediondo”.
Depois de discorrer sobre congressos de jornalistas
e empresários, com iguais patrocínios,
com a maestria que lhe é peculiar, continua:
“O objetivo é claro: colocar a magistratura
na defensiva, acuá-la de modo a que suas decisões
não arranhem os interesses globalizantes”.
“O Judiciário ainda constitui uma barreira
da invasão do modelo globalizante, e, por isso,
é preciso calar sua voz, ou melhor, condicionar
suas sentenças. Que se cuide o Ministério
Público, ou melhor, nem é preciso cuidar-se,
porque já sofre as mesmas investidas. Outra coisa
não representou o projeto da Lei da Mordaça,
em exame no Congresso”.
O primoroso artigo, tece semelhantes comentários
sobre servidores civis e militares, concluindo essa
parte dizendo: “Querem atingir o Estado e, sem
dúvida, colocar a Nação em frangalhos.
Destruí-la porque colônias não devem
constituir Nações, senão conglomerados
disformes”.
País em retrocesso, com servidores empobrecidos
e instituições em frangalhos, sem estradas,
com escolas e hospitais precários, profissionais
aviltados, classe média depauperada, pobres tornados
miseráveis, população amedrontada,
torna-se ambiente propício à estigmatização
de uma instituição, tanto mais quando
o Judiciário tem conseguido minimizar as brutais
perdas salariais resultantes do decênio político
de “empobrecimento geral da Nação”.
O aviltamento institucional, conduzido por especialistas
de alto nível, com o apoio de vasto segmento
da Imprensa, forçosamente arrebanha adeptos até
entre os mais esclarecidos, mercê dos sofismas
excelentemente articulados, resultando que entre os
apoiadores da estigmatização do Judiciário
estejam pessoas honestas e idealistas, conduzidas pelos
demagogos que pretendem erigir um palanque para galgarem
cargos eletivos.
O efetivo engajamento de um dos jornais de maior circulação
do Estado, que publica conclusões do Departamento
de Estado americano, no que se refere exclusivamente
ao mau desempenho do Judiciário, omitindo o do
Executivo e o do Legislativo, iguais ou piores, bem
como o de uma “pesquisa”, que nem tecnicamente
assim pode ser chamada, induz-nos a concluir o acerto
das assertivas de Carlos Chagas. Culpar o Legislativo
pela conduta de Hildebrando Pascoal, acoimado de esquartejador;
a OAB, porque uns poucos advogados são acusados
por hediondos crimes de homicídio e até,
outros, por surrupiarem verbas de pobres aposentados
e, por absurdo, querer atribuir à Santa Madre
Igreja mácula pelo fato de poucos sacerdotes,
aqui e alhures, serem acusados de hediondos abusos contra
indefesos menores constitui-se em um inominável
despautério. Denegrir o Judiciário e seu
órgão máximo, por mera presunção,
relativamente a fato futuro e incerto (julgamento) é
igualmente desarrazoado e ilógico, só
explicável pelo desiderato de atentar contra
o Estado brasileiro e a tranqüilidade pública.
O Judiciário é parte da soberania nacional,
suas decisões buscam o equilíbrio do Estado
e a harmonia social. Seus julgamentos são públicos
e obedecem a regras claras e conhecidas, assegurando-se
a todos o amplo direito de defesa, o devido processo
legal, e o contraditório. de todas as suas decisões
cabem recursos aos que delas acaso discreparem.
A Imprensa, falada ou escrita, deve fazer suas análises
dos fatos de forma criteriosa e educativa, conduzindo
a população à meditação
serena e equilibrada, em sua exata medida, não
de forma sensacionalista e passional, infundindo no
seio do povo a histeria coletiva e a descrença
nas Instituições. Urge os responsáveis
pela formação da opinião pública
chamem à razão os incendiários,
por inconseqüentes ou despreparados senão,
quem sabe, a Imprensa tornar-se-á o próximo
alvo do controle que fiscaliza e pune, igual ao do Judiciário.
João Byron de Figueirêdo Frota é
Desembargador
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