16 DE JULHO-UM DIA PARA REFLEXÃO
DOS MINEIROS
A Lei 7.561, de 19 de outubro de 1979, instituiu o Dia
do Estado de Minas Gerais a ser comemorado anualmente
em 16 de julho, efeméride declarada data cívica
pelo art. 256 da Constituição Estadual
de 1989 que determinou sua celebração
em todo o território mineiro e a transferência
simbólica da Capital para a cidade de Mariana.
São, portanto, mais de duas décadas de
consagração oficial de um momento histórico
que tem o seu nascimento há trezentos e nove
anos com a fundação de um pequeno arraial
às margens das águas que os Bandeirantes
denominaram Ribeirão do Carmo. O singular entre
este assentamento e outros, até mesmo anteriores
a 1696, ocorridos em pontos diversos do então
desconhecido território, era o seu caráter
de permanência provavelmente justificado pela
facilidade e abundância do metal precioso em busca
do qual se aventuraram aqueles paulistas. Se polêmicas
há quanto ao nome do descobridor, Salvador Furtado
de Mendonça ou João Lopes de Lima, não
nos importa aqui dirimí-las, preferindo, contudo,
acompanhar Cláudio Manuel da Costa, Raimundo
Trindade e Salomão de Vasconcelos que se fixaram
no primeiro. Inquestionável, porém, é
que Antônio de Albuquerque Coelho, Governador
da Capitania de Minas e São Paulo, elevou, em
8 de abril de 1711, o arraial à categoria de
Vila e, em 4 de julho, fez realizar a primeira eleição
para a Câmara cujos votos foram recolhidos na
urna ainda hoje exposta no Museu Arquidiocesano de Arte
Sacra. Ela é testemunha silenciosa do primeiro
ato democrático das Minas. Não ficará
qualquer dúvida quanto à primazia daquele
agrupamento politicamente organizado, quando se lê,
na Carta Régia de D. João V, de 23 de
abril de 1745: “ Atendendo a que a Vila do Ribeirão
do Carmo é a mais antiga das Minas Gerais e que
fica em sítio mais cômodo para a ereção
de uma das duas catedrais que tenho determinado pedir
a Sua Santidade, no território da Diocese do
Rio de Janeiro, fui servido criar Cidade a dita Vila
do Ribeirão do Carmo, que ficará chamando-se
Mariana...” Foi a única cidade do período
colonial mineiro e, já tendo sido sede de governo,
necessário seria, para receber foros episcopais,
imprimir-lhe urbanização, o que se deu
conforme ordem daquele monarca ao engenheiro português
José Fernandes Pinto de Alpoim que fez de Mariana
a primeira do país rigorosamente planejada. Os
mineiros repetiriam este pioneirismo construindo Belo
Horizonte, a terceira capital do Estado, e o diamantinense
Juscelino Kubitschek, Brasília, a terceira capital
do país.
De Mariana, o Conde de Assumar governou Minas e São
Paulo enquanto permaneceu uma só capitania até
tornar-se autônoma a de Minas do Ouro e Campos
Gerais. Com isto, transferiu-se o poder civil para Ouro
Preto, mantendo-se a sede episcopal em Mariana, criada,
em 6 de dezembro de 1745 pelo papa Bento XIV. O primeiro
titular da diocese foi Dom Frei Manoel da Cruz que a
assumiu em 1748, depois de ter sido Bispo de São
Luiz do Maranhão. Sua posse consagrou um dos
momentos mais significativos para a intelectualidade
de Minas quando se instalou em Mariana a Academia Cultista
de Letras cujos membros se reuniram por muitos dias
para saudar o novo Bispo e representante do Papa Bento
XIV. O livro “Áureo Trono”, publicado
em Lisboa em 1749, registra com riqueza de detalhes,
a criação da diocese, os discursos, sermões
e poemas dos intelectuais que acabaram criando a primeira
Academia de Letras do Brasil.
Dom João V e sua esposa, a Rainha D. Maria Ana
D’Áustria, demonstrando seu apreço
à cidade, doaram à catedral marianense
o Órgão Arp Schnitger, construído
em 1701 na cidade de Hamburgo, norte da Alemanha, o
único instalado fora da Europa e um dos poucos
ainda em funcionamento.
Por iniciativa do Arcebispo Dom Oscar de Oliveira e
apoio do então Governador Aureliano Chaves que
acertadamente colocou à frente do projeto de
restauração o competente e dedicado engenheiro
Francisco Afonso Noronha, à época presidente
da CEMIG, o Órgão Arp Schnitger pôde
voltar a ser ouvido em 1984, após cinquenta anos
de silêncio. Mais recentemente com apoio da PETROBRAS
e da Fundação VITAE, concluímos
em dezembro de 2002, sua última restauração.
Indicada pelo renomado organista europeu Guy Bovet,
a empresa suiça Bernhart H. Edskes Orgelbau realizou,
após cuidadoso inventário de todos os
componentes do órgão e científica
análise dos mesmos, a intervenção
responsável por fazê-lo retornar à
condição original. Aqui, merece um capítulo
à parte, e o fazemos apenas a título de
rápido registro, nossa luta contra as incompreensões
das Autoridades alfandegárias. Quando do retorno
do material, foi exigido onerosa tributação
sobre as peças do Órgão Arp Schnitger
enviadas para restauro na Suíça, ato devidamente
autorizado pelo Ministério da Cultura. A solução,
nós a obtivemos, quase 1 ano depois, com sentença
em mandado de segurança interposto contra o Ministério
da Fazenda.
Comemoram-se, agora, os duzentos e cinqüenta e
cinco anos do Seminário de Mariana, por onde
passaram notáveis brasileiros que souberam engrandecer
nossa pátria nos mais diferentes ramos da atividade
humana. Ali se inauguraram os cursos superiores de Minas
com a Filosofia e a Teologia.
Para qualquer lado que se penda, da História,
da Cultura, da Religião, da Política ou
da Economia, encontrar-se-á a presença
pioneira de Mariana, muito bem expressa em seu dístico:
“Urbs mea cellula mater”, razão pela
qual ela não se pertence. Suas fronteiras já
não existem quando se sabe ser cada parte do
Estado e da própria Nação um pouco
desta célula-mater.
A simples e pura análise da História justifica
celebrar o 16 de Julho como Dia de Minas, assim consagrado
oportunamente pelo legislador. É uma data que
convida à reflexão, à busca das
origens, uma volta às fontes que revigoram o
caminheiro. Não é apenas um retorno ao
passado onde a saudade fez sua morada. É defrontar-se
com a âncora que é a nossa referência,
e com a plataforma a partir da qual nós nos lançamos
para o amanhã. Desconhecendo-as, não se
alcança ou se perde a identidade individual ou
coletiva, força construtora do presente e norteadora
do futuro.
2005 é um ano significativo para Minas Gerais
quando se tem como foco a cidade de Mariana já
que se comemoram o sexagésimo aniversário
do Decreto-lei nº 7.718, de 6 de julho de 1945,
declarando-a Monumento Nacional, e o vigésimo
quinto das comemorações oficiais do 16
de julho como Dia do Estado de Minas Gerais.
Além do mais, é bom que se noticiem alguns
avanços em prol da Cultura que a comunidade marianense
tem realizado. A título de exemplo, podemos citar
o Projeto Acervo da Música Brasileira, Restauração
e Difusão de Partituras dos Séculos XVIII
e XIX, distinguido com o Prêmio Rodrigo Melo Franco
de Andrade pelo Ministério da Cultura como o
mais importante programa cultural brasileiro de 2002.
Para uma avaliação do alto nível
de tal projeto basta que se saiba ter tido o seu site
www.mmmariana.com.br recebido, de 2004 até o
presente, mais de 150.000 visitas em grande parte de
outros países.
Hoje, o acervo do Museu da Música de Mariana
está sendo analisado, conforme processo que encaminhamos
à UNESCO, em Paris, no final de 2004, para ser
inscrito no Programa Memória do Mundo, o que
vai colocar o Brasil na condição de um
país de mesmo nível cultural dos europeus
dos Séculos XVIII e XIX.
Nos últimos 10 anos, temos colhido frutos que
merecem registro de ações sem as quais
o patrimônio cultural de Mariana e da Arquidiocese
estaria acentuadamente empobrecido.
As iniciativas de Dom Oscar, aliás dignas de
louvor, tiveram acolhimento e renovado impulso por parte
de Dom Luciano que, rapidamente, entendeu o alto grau
de responsabilidade colocada em suas mãos, ou
seja, recuperar e preservar o acervo patrimonial barroco
mais importante do Brasil. Por essa razão, buscou
na Fundação Cultural e Educacional da
Arquidiocese seu ponto de apoio.
O resultado todos conhecem. Mais de 25 monumentos religiosos
tombados foram restaurados ou estão em fase de
restauração na circunscrição
arquidiocesana que engloba 81 municípios com
mais de 1.000.000. de habitantes.
Dois exemplos visíveis e próximos são
o Palácio Velho dos Bispos e o Santuário
do Carmo sinistrado em janeiro de 1999. Hoje o Carmo,
embora depauperado pelo que perdeu de pinturas e imagens,
está restaurado, aberto ao público e aos
ofícios religiosos além de ser modelo
de restauração para o IPHAN e para o IEPHA.
A FUNDARQ, como é chamada nossa Fundação,
agrupa pessoas que se aplicam em trabalhos voluntários,
visando colaborar com a Arquidiocese na vistoria periódica
dos bens tombados e indicação das providências,
angariar fundos para a conservação, manutenção
e restauração do acervo histórico,
artístico e cultural, promover tais serviços,
formular e executar planos, projetos, programas e atividades
caracterizadas como educacionais ou culturais, promover
cursos em especial de música em geral, clássica
e religiosa e de preservação e restauração
do patrimônio cultural.
Por fim, a FUNDARQ funciona também como um fórum
de assessoria das decisões a serem tomadas pela
Arquidiocese quando se trata de seu relacionamento com
os Governos Federal, Estadual ou Municipal envolvendo
seu patrimônio cultural e religioso.
Estamos restaurando, já em fase adiantada, o
Palácio Velho dos Bispos, magnífico exemplar
arquitetônico do Século XVIII, para abrigar
o Museu da Música e o Museu dos Livros Raros,
a sede da Fundação Cultural e Educacional
da Arquidiocese e da futura Orquestra de Câmara
que se apresentará semanalmente executando músicas
dos Séculos XVIII e XIX, brasileiras e estrangeiras.
Há pouco mais de 30 dias, demos início
a mais um projeto cultural com apoio da Caixa Econômica
Federal e da Fundação VITAE, visando aprofundar
a pesquisa e a difusão do acervo musical e, considerando
o transcurso do bicentenário de morte do compositor
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (Vila do
Príncipe-MG 1750-Rio de Janeiro, RJ, 1805), a
edição de livro com partituras e fac-similes
de suas obras além de sua biografia.
Outra parte importante do currículo da FUNDARQ
é o projeto Concertos Didáticos que, por
dois anos, temos realizado trazendo à Catedral
os alunos das Escolas Públicas Municipais e Estaduais
para assistirem a um concerto em que é executado
o Órgão Arp Schnitger.
Durante 4 meses deste ano, quase 5.500 crianças
tiveram tal oportunidade. Para a maioria, foi a primeira
vez em suas vidas em que puderam conhecer o mais famoso
instrumento musical do Brasil, sua história e
de seu construtor Schnitger, do seu doador a Mariana,
o Rei de Portugal Dom João V, como funciona,
seus restauros, sua decoração com motivos
chineses, seus primeiros organistas, etc. E o mais importante:
olhos projetados no grande objeto pintado a ouro, ouvidos
atentos a músicas que jamais ouviram e corações
pulando de alegria... A maioria formada por crianças
carentes entre as quais muitas sequer conheciam a sede
de seu município porque residentes em distritos
distantes 20, 30, 40 até 50 Kms. Mesmo entre
os que habitam a cidade, numerosos jamais haviam entrado
na Catedral nem muito menos sabiam da existência
daquele dito Arp Schnitger, um nome difícil e
inexistente para eles e a milhares de outros a quem
o Brasil tem negado o direito à Cultura.
A FUNDARQ pretende reeditar este programa e ampliá-lo
na direção do que chamamos inclusão
cultural. A nosso ver esta é uma atividade que
lança luz à escuridão daqueles
como os que desejavam tributar na alfândega as
peças do Órgão Schnitger.
Enquanto uns são barreiras, muitos nos ajudam
a caminhada como a administração municipal
de Mariana e de outros municípios que nos têm
procurado desejosos da mesma oportunidade.
Acredito estarmos diante de um novo tempo e que ele
venha mais célere ao encontro de todos os brasileiros.
Algo a merecer aqui uma lembrança especial porque
serve de bom exemplo de cidadania, de amor a sua terra,
às artes e ao que nos legaram os nossos antepassados,
é a exemplar ação do nosso Conselheiro
da FUNDARQ Prof. José Anchieta da Silva. Este
tem realizado um belíssimo trabalho como a restauração
da Matriz Santo Antônio, Igreja São Francisco
e Senhor do Bonfim em Santa Bárbara.
No plano local, contamos com a força de outra
entidade, a Casa de Cultura-Academia Marianense de Letras,
Ciências e Artes que, nesses seus 43 anos de existência,
tem feito muito por Mariana, defendendo seu patrimônio
histórico e artístico e trazendo desenvolvimento
econômico e obras para o município como
agências bancárias, estrada de contorno,
seminários para discutir a atividade mineradora
e turística e o plano diretor do município,
além da instituição do dia 16 de
julho, aniversário de Mariana, como o Dia do
Estado de Minas Gerais, celebrado anualmente em todo
território mineiro com a transferência
simbólica da Capital para Mariana.
Preocupada com o crescimento cultural e cívico
de nossas crianças e jovens, criou a Academia
Infanto-juvenil de Letras que tem motivado os alunos
do primeiro e segundo graus para a leitura e a produção
literária e artística.
Recentemente, em primeiro de Julho, uma grandiosa solenidade,
presidida pelo Ministro do Turismo com a presença
das Administrações Públicas de
Mariana e Ouro Preto e representantes do Governo Mineiro,
da Cia. Vale do Rio Doce e da USIMINAS, lançou
o início das obras do Trem de Turismo que percorrerá
18Kms ligando estas duas Cidades Históricas.
Passará pelas quatro estações que
serão adaptadas para centros culturais. Há
previsão de que, concluídas as obras com
a inauguração já estabelecida para
21 de abril de 2006, as duas cidades receberão
anualmente 150.000 turistas atraídos por este
novo equipamento. Além disto, despertará
o interesse turístico nas crianças e nos
jovens que se motivarão para o turismo cultural
e ecológico de que Mariana e Ouro Preto são
tão ricas.
Todas estas ações estimulam o exercício
da cidadania fazendo com que nosso povo conheça
melhor nossas raízes, nossas tradições,
o precioso legado dos antepassados e a extraordinária
fortuna natural, um dote incomensurável do Criador
ao Brasil.
É evidente que todas as forças, tanto
da iniciativa privada quanto pública, hão
de estar conjugadas e voltadas para fortalecer os mesmos
objetivos. Todavia, não se pode abrir mão
dos primeiros que devem chamar a si esta responsabilidade,
ou seja, os governos municipais. Graças a Deus,
nos últimos quatro anos, Mariana assumiu bem
isso. A cidade tem-se qualificado e procurado resolver
questões básicas como intervir e recuperar
casarões em estado de degradação,
promover o tratamento da água, resolver os problemas
de esgoto a céu aberto, melhorar a segurança
com a criação da guarda municipal, qualificar
os monitores e guias de turismo, incentivar o comércio
e o parque hoteleiro, sem se esquecer da educação,
da saúde e das demais carências.
Afora tanto, precisamos urgentemente colocar o turismo
como instrumento de inclusão social na medida
em que ele seja gerador de emprego, renda e divisa.
Mas, não só isto. Deve ser ele um definitivo
agente cultural e educacional, induzindo positivamente
a todos conhecerem mais sua pátria, e, conhecendo-a,
amem-na com todas as forças.
Jean Pierre Changeux, de um modo lapidar, se expressou:
“Les peuples sans mémoire sont des peuples
sans avenir”.
E o que queremos para o Brasil de hoje e de amanhã,
senão o Brasil com futuro seguro porque terá
sabido respeitar suas raízes e valorizado o que
lhe chegou às mãos. Sem dúvida
alguma, é no chão do passado que as raízes
se ocultam e assimilam a vida. O futuro depende essencialmente
deste chão.
As gerações de hoje precisam ser exemplo
para as sucessoras. Há uma responsabilidade indeclinável
de nossa parte. Recebemos um patrimônio que deveremos
transferir aos pósteros preservado, qualificado
e ampliado pela modernidade.
Relembre-se, aqui, a postura dos vereadores de Mariana
que, no século XVIII, se preocupavam em proteger
a natureza e sua “competente formosura”,
aprovando uma rígida lei de proteção
da vegetação e das margens do Ribeirão
do Carmo. Trazer à luz este tri-secular procedimento
político nos enseja argüir os administradores
públicos quanto ao correto cumprimento de seu
dever não só em relação
à ecologia mas a tudo que diz respeito ao cidadão,
o verdadeiro destinatário do bem comum. Eis porque
o Dia de Minas, no 16 de Julho, é o momento precioso
de encontro com a História, mestra de todos.
Palestra pronunciada em 06/07/2005, na Arcádia
de Minas Gerais, abrindo as comemorações
do Dia do Estado de Minas Gerais, pelo professor e advogado
ROQUE CAMÊLLO, Diretor Executivo da Fundação
Cultural e Educacional da Arquidiocese de Mariana-FUNDARQ
e Presidente da Casa de Cultura-Academia Marianense
de Letras, Ciências e Artes.
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