SP, 30.10.04
AMBIÇÃO - BENEFÍCIO E
ARMADILHA
A.H.Fuerstenthal
Sobre a ambição como benefício,
para o indivíduo e para a comunidade, não
é preciso dizer muito. A ambição,
como fonte de energia, força motora do desenvolvimento
e do progresso, é a característica mais
importante da civilização ocidental. Cada
estrada, cada edifício, cada máquina e
cada organização falam da ambição
de um ou vários empreendedores, inventores, líderes
e políticos.
Europeus e norte-americanos foram essencialmente ambiciosos
através de toda sua História. A contemplação,
uma atitude oposta à ambição, é
uma herança oriental, relegada no Ocidente à
religião, à filosofia e às artes.
Tradicionalmente, no ambiente europeu, a contemplação
cabe ao sábio, enquanto o indivíduo de
sucesso prático deve ser ambicioso. O modelo
do norte-americano bem sucedido é o “achieving
man”, o homem realizador.
Ambição, determinação e
perseverança são as tendências que
estão atrás de todos os grandes empreendimentos
particulares ou públicos. Só em segundo
lugar vem o discernimento e o senso comunitário.
Todavia, sem a ambição o mundo não
teria cidades, mecanismos de toda espécie, nem
unidades sócio-políticas. A inteligência
é responsável pela qualidade de tudo que
se faz, a emoção torna a vida digna de
ser vivida, mas a ambição é a causa
de toda dinâmica e de toda criação
do bem.
Infelizmente, aqui não acaba a história
daquele elemento benéfico. A ambição
é como o combustível: bem canalizado,
faz motores funcionar; mas, dissipado pelo ar, pode
se incendiar, explodir e causar danos imensos.
Existem movimentos sociais que começaram mansamente
e levaram a explosões. Assim, o movimento protestante
de Martin Luther visava apenas a introdução
de um culto religioso mais simples e natural e acabou
numa guerra de trinta anos, arrastando toda a Europa.
Aliás, todas as guerras começam com justificativas
racionais, estratégias, cálculos e previsões
e acabam em desordem e explosões não somente
de bombas, e sim do esquema inteiro. A guerra é
a demonstração explícita da ambição
como armadilha.
Todavia, a ambição pode ser nefasta sem
ser marcial. Assim, uma das formas mais devastadoras
da ambição é a vaidade, a ânsia
de aparecer, de atrair, de ser aplaudido, querido, apreciado,
preferido, lembrado. A vaidade pode se expressar de
várias maneiras, tais como egofilia, egomania,
egocentrismo, exibicionismo, megalomania, etc. Todas
essas aberrações parecem pacíficas,
mas não o são inteiramente. Estimulam
a politicagem pessoal, a lisonja e a hipocrisia. Assim
surge o funcionário que faz carreira através
da insinceridade em vez do esforço.
Enquanto nos ambientes sociais as vaidades femininas
e masculinas levam apenas a gastos desnecessários
em cosméticos, jóias, cirurgias plásticas,
carros de luxo, etc., em ambientes empresariais a vaidade
é como um germe que ataca o comportamento, especialmente
dos executivos. Sob o impacto desta falsa ambição,
confundem sua importância pessoal com os objetivos
corporativos e fazem dos seus subordinados marionetes
que se preocupam mais em agradar o superior do que em
produzir algo de útil.
Outra expressão da ambição fútil
é o exercício físico exagerado,
causado pela vontade de se parecer mais jovem, mais
forte, mais elegante. Já levou muitos portadores
de saúde perfeita à morte tão súbita
quanto inesperada.
Enquanto a vaidade, apesar de toda sua nocividade,
é uma forma relativamente branda de ambição,
o contrário deve ser dito sobre as manifestações
criminosas da ambição. Não corresponde
ao conceito convencional e contemporâneo associar
o crime à ambição. Geralmente,
procura-se o motivo da ação criminosa
em estados de necessidade e privação ou
numa constituição patológica. Entretanto,
a maioria dos atos de apropriação indevida,
violentos ou não, pode ser compreendida como
expressão genuína de uma ambição
de posse ou status, privada de qualquer capacidade de
alcançar seus objetivos legalmente.
Um arrombador de cofres não pode esperar alcançar
valores comparáveis à sua arrecadação
através da aplicação legítima
da sua habilidade. Para ganhar no comércio o
que se obtém num roubo, precisa-se de conhecimentos,
de esforço, de disciplina e de paciência.
Quem tem tudo isto? Não é de admirar que
na nossa sociedade existam inúmeros indivíduos
desejosos de riqueza e posição social,
mas carecendo das condições culturais
para adquirir tais benefícios honestamente. Esta
é talvez a classe criminosa mais abrangente de
todas.
Existe na pedagogia e jurisprudência modernas
uma tendência de considerar tais ambiciosos malévolos
apenas como vítimas de uma sociedade que não
lhes forneceu meios legais de subsistência. Há
um toque de sentimentalismo exagerado nesta atitude.
O terrorista suicida certamente é portador de
uma cultura, de uma religião e de um patriotismo
sui generis, mas o motivo decisivo da sua ação
mortífera é a ambição patológica,
a expectativa de usufruir os prêmios da sua ação
numa eternidade paradisíaca.
O remédio para a ambição perigosa
e patológica é naturalmente a educação.
Todo indivíduo deve assimilar os conhecimentos
e desenvolver os talentos necessários para realizar
suas ambições. E aqueles cujos sonhos
são irrealizáveis devem aprender a abandoná-los
e viver contentemente com aquilo que está ao
seu alcance. Ambições benéficas
são aquelas que se prendem à razão
e à realidade.
© A.H.Fuerstenthal 2004
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