Células Tronco – Uma decisão
Estratégica
Ao aprovar o Projeto de Lei da Biossegurança
o Congresso Nacional deu um passo de gigante na consolidação
do Brasil como um país de liderança tecnológica
e visão estratégica na utilização
de recursos para o bem da Humanidade.
O Brasil foi o país pioneiro no desenvolvimento
de políticas de saúde agressivas e governamentais
no tratamento da AIDS, quebrando patentes e investindo
pesado no controle desta doença que causa sofrimento
e morte, mesmo contra a opinião de muitos cientistas
e políticos no mundo.
Também na área de transplantes a comunidade
médica e científica do Brasil é
respeitada internacionalmente. Não podemos esquecer
que também nestes tratamentos foram levantados
óbices éticos graves. Como seria o comportamento
de um homem com o coração de outro? E
no caso de transplante de tecido nervoso? Seriam transplantados
os sentimentos do doador? A personalidade? E até
hoje perduram as discussões de quando termina
a vida. Quando cessa a atividade do sistema nervoso?
Agora vem a discussão sobre células tronco
embrionárias. O Congresso Nacional aprovou um
projeto de lei que é suficientemente inovador
e ao mesmo tempo seguro. Só poderão ser
usados para a pesquisa embriões congelados há
mais de três anos e inviáveis para a reprodução.
Estes embriões seriam descartados ou congelados
para sempre. Não há a mínima dúvida,
portanto, que ao autorizar o uso destas células,
está se autorizando apenas o uso para o bem da
humanidade de algo que iria ser desprezado.
Porque há embriões inviáveis? Porque
na própria natureza muitas das uniões
entre espermatozóide e óvulo originam
embriões imperfeitos que, graças a Deus,
não se confirmam em gravidez a termo, ou seja,
ou são expulsos na forma de abortamento, ou não
conseguem lograr a nidação, fixação
do embrião ao útero.
Ao fazer embriões em laboratório através
das técnicas de reprodução assistida
os cientistas não são melhores que a própria
natureza e também originam embriões inviáveis.
Por outro lado as pesquisas com células tronco
embrionárias estão apenas começando.
Células tronco são células que
podem originar células de qualquer tecido humano
desde que submetidas a métodos especiais de cultura
e divisão celular. E sobre isto quase nada se
sabe ainda. O resultado será uma cultura de células
que poderá ser usada em situações
específicas. E esta cultura e seus métodos
de reprodução poderão ser patenteados...
E aí uma grande conquista para a Humanidade terá
seu preço. Em dólar ou em euro.
O Brasil não pode ficar longe desta pesquisa
não só porque tem condições
técnicas para realizá-las como também
dá exemplos claros que, neste país, tecnologia
a favor da vida são colocados à disposição
da humanidade e não vendidos a preço de
ouro, ou de vidas.
Doenças hoje sem cura como Alzheimer, paralisias,
infartos e doenças cardiovasculares, derrames,
diabetes e mesmo alguns tipos de câncer poderão
ser tratadas com células fabricadas para tal
fim a partir de células tronco. É uma
promessa? Sim, mas de fato com probabilidade de dar
certo.
Por último resta ainda uma outra definição
de segurança na própria lei. Os embriões
inviáveis só poderão ser usados
para a pesquisa se forem doados com este fim pelos seus
pais biológicos. Isto talvez traga mais segurança
para aqueles que ainda tem dúvidas sobre a ética
desta medida. Tal como órgãos, somente
seus legítimos detentores do direito podem decidir
o que fazer com eles.
Resta somente a definição de quando começa
a vida, discussão teológica, mas que merece
o respeito da comunidade científica e do legislador.
E agora me permito uma comparação. Se
a vida termina quando cessa a atividade do sistema nervoso,
será que não começa também
quando se inicia esta atividade? Aos quatorze dias do
embrião?
Uma coisa, porém, é certa. A definição
de morte cerebral poderá mudar com o advento
das culturas de células tronco. Pois, quando
terminar a atividade cerebral poderá ser usada
uma cultura de neurônios que tragam de volta a
vida. E esta cultura poderá ser possível
a partir da pesquisa com as células tronco de
embriões que seriam descartados.
Somente o tempo mostrará se estamos muito otimistas
ou não. Mas negar a pesquisa é acreditar,
ainda, que o sol gira em torno da terra.
Dr. Sérgio dos Passos Ramos
Médico especialista em Ginecologia e Obstetrícia
pela Associação Médica Brasileira
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