O Mausoléu de Castello
Oscar Araripe
Poder-se-ia dizer o mausoléu do mausoléu,
tal o abandono, físico e de sentido em que seca,
geme e padece o Mausoléu de Castello Branco,
na Abolição.No seio da Família
Alencar, a que pertence o Marechal Humberto de Alencar
Castello Branco, pensa-se que o Mausoléu devia
ser repensado, ou como um mausoléu dos heróis
e notáveis da Família ou como um mausoléu
dos heróis e notáveis cearenses. Devo
dizer que como Alencar que sou opto pelo mausoléu
dos heróis cearenses e notáveis, onde
lá se encontrassem Bárbara de Alencar,
Tristão, José Martiniano, Ana Triste,
Senador Alencar, Padre Carlos, Padre Roma, Ibiapina,
Antonio Conselheiro ,Padre Mororó e inclusive
Castelo Branco, Clóvis Beviláqua, Farias
Brito, José de Alencar, e tantos outros.
Tal idéia, muito necessária quando se
pensa no renascimento do provável e possível,
belo e necessário monumento, vai necessitar o
envolvimento de todos, e muitas questões se alevantam.
Deveria ou poderia, por exemplo, Tristão de Alencar
Araripe ter seus ossos junto com os de Castello Branco?
Ainda que digam que os ossos de Castello Branco já
não estejam mais no hoje lúgubre monumento,
pois membros de sua família próxima os
levaram para o Rio de Janeiro, mas, como tudo que é
humano é simbólico, Castello Branco está
lá. Quase o mesmo ocorre com o bravíssimo
e elegante Senador Alencar, que com sua súplica
terrível ao Imperador, salvou muitos membros
da nossa e de muitas outras famílias de heróis
e combatentes, de maus e bons combates.Sofri o diabo
no Governo Castello Branco, como estudante da Nacional
de Direito, no Rio, ali ao lado do Ministério
da Guerra de Castello, e junto ao Supremo Tribunal Militar,
ironicamente também magistrado por um Alencar,
o Ministro Tristão de Alencar Araripe. Castelo
tem a seu favor o fato de ter sido o primeiro, quando
a ditadura ainda não estava na cabeça
de todos, aliás, como nunca esteve.Seria um inocente,
e talvez nem útil.
Por estas e outras, estou certo que um mausoléu
dos heróis e notáveis cearenses, com toda
certeza, seria apoiado por Bárbara de Alencar,
que tinha o dom natural do perdão, a graça
da grande maturidade, chegando a perdoar os próprios
inimigos, desdizendo-se (aparentemente),algumas vezes,
ao defender os que haviam matado seus próprios
filhos, netos e primos, e tantos outros familiares ou
não, aliados na luta pela independência
e a República, os direitos humanos e as liberdades
democráticas da época. Ou seja, nossos
heróis precisam marchar juntos. Ainda hoje Bárbara
não é nem citada, por exemplo, no livro
adotado pelo Colégio São Bento, de Olinda,
Pernambuco.Como Galileu, Giordano Bruno e Tristão
Araripe.Três heróis, três condutas.
O primeiro se desdisse e se salvou, o segundo não
se desdisse e morreu na fogueira, preso.Tristão
não, não se desdisse, não aceitou
a oferta de exilar-se nos Estados Unidos e morreu combatendo
o bom combate. Entre os três, meu coração
balança.É preciso olhar e ver as estrelas,
de qualquer modo, ou maneira. Bela estrela a de Tristão
– Ana Triste e os filhos no Sitiá, tão
bela quanto aquele grande Sol de Galileu , quase egípcio,
e que fazia girar a própria Terra.Grande combate
o de Giordano Bruno, mas Tristão inaugura algo
novo, o amor que engrandece a mulher, o amor republicano,
heróico, único, raríssimo à
época e um dos mais belos e verdadeiros contos
de amor e glória de toda a história brasileira
e universal.
Enfim, mais do que nós estaríamos todos
ali representados e juntos, irmanado aos heróis
e notáveis de toda a família cearense.
Pintor e escritor.
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