JOÃO SOARES NETO
Hollywood e a estética da miséria
(artigo publicado no Diário do Nordeste em 27/02/05)
Hoje é noite de Oscar em Hollywood. Não
tem nenhum filme brasileiro (Diários de Motocicleta
é falado em espanhol e é uma co-produção
de vários países) na disputa e, se tivesse,
certamente não ganharia. Quais as razões?
Não sei, mas desconfio. Os diretores e produtores
brasileiros, mesmos os ricos e herdeiros, teimam em
fazer filmes que realçam a tal estética
da miséria ou contar, em parceria, por exemplo,
a história do jovem Che Guevara. Filmes como
Central do Brasil, Carandiru e assemelhados passam batido
no critério hollywwodiano de escolher os vencedores
da tal estatueta folheada a ouro. Olga, neste ano, nem
indicado foi. Não adianta fazer lobby, associar-se
com gringos, dar entrevistas e sonhar. Aliás,
sonhar é bom, mas o sonho da turma de cineastas
e produtores americanos é diferente do nosso.
Eles não vêem estética na nossa
exposição de miséria. As nossas
fraturas sociais não dizem respeito à
traumatologia cinematográfica da era Bush.
A festa da noite de hoje é, quer nós
queiramos ou não, a festa da futilidade, exibição,
filmes coloridos com histórias limitadas, grandes
efeitos especiais, apresentador engraçado e entrevistas
abiloladas. Nada de responsabilidade social, verdades
nuas e cruas ou discutir o essencial. É o cinema
quase inconseqüente ou glamouroso. Lá o
fórum é outro. É alienado, desengonçado
e segue a estética das limusines, vestidos vaporosos,
artistas com gel no cabelo, só esperando os ‘‘flashes’’
e olhando para as câmeras. As críticas,
quando as há, são em favor de alguma minoria
ou contra a venda de armas. Mais do que isso, nada.
É querer muito. Se é tempo de guerra no
Iraque, miséria na África, ´tsunami´
na Ásia e guerrilhas na América Latina,
os membros do júri do Oscar não querem
ver, saber ou discutir disso.
E parece que, mesmo assim, os filmes americanos continuam
sendo admirados por aqui. O filme ´Hitch´
(Tennant, diretor e Will Smith, ator), uma comédia
sobre um conselheiro sentimental, onde o espectador
não precisa pensar, foi visto por mais de 262
mil brasileiros no último fim de semana. O ´Aviador´
(Scorsese e Di Caprio) que é um pouco, só
um pouco, letrado, pois conta a história, fragmentada,
de uma das muitas versões de Howard Hughes, empreendedor
rico, cínico e visionário que enveredou
pelo transtorno obsessivo compulsivo e terminou louco,
foi visto por 121 mil. E olha que não estou falando
dos filmes ´Menina de Ouro´, de Eastwood
com Hillary Swank (a moça lutadora de Box) e
´Sideways´, de Alexander Payne com Paul
Giamatti e Haden Church (dois amigos maduros misturando
conquistas e depressões) que mexem com sentimentos.
Parece que os brasileiros estão cansados ou cansando
do uso da miséria para os mais diversos fins.
Quem sabe se mandarmos no próximo ano um filme
da Xuxa ou do Renato Aragão não teremos
mais chances de indicações?
* Escritor
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