Avançar até Olinda
Oscar Araripe
Olinda está em plena folia.Há semanas
que já é Carnaval. E que Carnaval!
Fortaleza, digamos, não tem Carnaval, embora
vivamos também um clima de festa no ar. Aqui
como lá temos uma moça Prefeita. A de
lá já reeleita. Temos, portanto, motivos
para festejar.
Generalizando, o Ceará é um Pernambuco
de pouca África e o Pernambuco um Ceará
de pouco índio – mas, com Maurício
de Nassau.Daí o Carnaval, que aqui em Olinda
é rico de sons antiqüíssimos e ritmos
vários, de surpreendentes instrumentos musicais,
e grandes tambores tocados com força por enérgicas
moças, que ecoam por dentro de nossos corpos,
nesta vila vivíssima, de paredes como tambores.Vida
e arte, tudo junto.”Felinto Pedro Salgado, Guilherme
Fenelonga, de seus blocos famosos / Bloco das Flores,
Andaluza, Pirilampo, Apósfum, dos carnavais passados”.
E que ainda agora podem ser vistos por estas ruas, e
até rivitalizado. E mais o frevo, o coco, o maracatu,
o samba, os alumbramentos sensuais, o Carnaval geral.
E Fortaleza? Temos este gostoso carnaval no ar, a cidade
está ficando mais limpa, embora falte Cultura
para mantê-la limpa. Sócio-cultura. Aqui
como lá, elegemos nossas bravas moças,
mas não nossos grandes gestores culturais. Fortaleza
bem podia ser a primeira cidade do Brasil e do mundo
a eleger os seus gestores culturais.
Enquanto isto, lá em Olinda literalmente pisa-se
na Arte, tal a profusão de “mosaicos”
azuis, amarelos, verdes, de prodigiosos desenhos, artdecôs,
liberties, arabescos, belas geometrias que se pisa com
os olhos do pé: algo extraordinário e
de grande beleza, e inesquecível. Olhar a Arte
do chão desta cidade cultural...A Capela Dourada,
de Recife, é mais bela que a Capela Sixtina,
de Roma, sem dúvidas.
Bem; aqui em Fortaleza já podemos nos maravilhar
com as lindas continhas de sementes vermelhas espalhadas
pelo chão de nossas ruas e calçadas, já
bem mais limpas. E nada existe de mais belo que o carnaval
humano, seja na terra, seja no ar...
Pernambuco e Ceará. O Rio de Janeiro. Eis aí
uma nossa forte trindade cultural.Urge um centro de
referência de estudos Pernambuco-Ceará.Haja
visto Bárbara de Alencar, que é nossa
heroína, mas nasceu em Exu, Pernambuco.Haja visto
Martim, o amor de Iracema,“ o pai do Ceará”,
que veio de Pernambuco e voltou pra Pernambuco. Um Ceará
imaginário ao tempo de um Pernambuco real. Uma
bela Confederação.
Ou seja, o Carnaval de Fortaleza deve ser de Fortaleza.
Mas ganharia muito se avançasse até Olinda,
a de hoje, a de sempre, e a “dos tempos ideais,
do velho Raul Morais”.
Pintor e escritor.
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