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Ainda é tempo para mudar
DCI - SP - 04/07/2005 (matéria na íntegra)
Cristiano Kok

É evidente que a taxa Selic não guarda correlação com a inflação - basta analisar uma série de quatro anos para se observar que a taxa de inflação brasileira é sensível ao câmbio, à indexação de contratos, ao aumento de tributos, aos juros praticados pelo mercado financeiro, aos custos de transporte de mercadorias, mas não à taxa Selic, eleita pelo Banco Central como único mecanismo capaz de fazer a inflação se enquadrar nas metas pré e arbitrariamente fixadas.
A inflação brasileira será controlada se houver simultaneamente uma redução da taxa Selic (para reduzir a dívida interna), investimentos maciços na infra-estrutura e nas cidades (para reduzir o chamado Custo Brasil e redistribuir a renda) e uma reforma tributária.
A reforma é importante para que se desonere a folha de pagamento, aumente a base de contribuintes e reduza as alíquotas hoje praticadas - apenas a título de exemplo, se a CPMF tivesse a alíquota de 4% teria a capacidade de substituir todos os tributos federais, exceto o Imposto de Renda, e inclusive a contribuição patronal à Previdência Social.
Em paralelo, os gastos públicos também precisam ser controlados. E isto requer uma gestão dos gastos públicos similar à que é feita na iniciativa privada. Isso significa que serão necessárias uma série de auditorias externas de processos e de despesas, com controle orçamentário rigoroso, com licitações transparentes e auditadas, com o aparelhamento dos Tribunais de Contas, com o controle e punição da corrupção e com um serviço público selecionado por concurso público e imune às ingerências políticas.
Estas regras são básicas para a atração de poupança externa.
Há necessidade de desafogar o Judiciário - hoje, em mais de 60% das demandas o Poder Público é parte, quer como Autor, quer como Réu, com múltiplos recursos e prazos duplicados - , estimular a Arbitragem e criar um ambiente de confiança nas instituições.
O País tem excelentes projetos, mas não inspira credibilidade aos investidores externos e internos. Se houver essa confiança, será possível atrair novamente os capitais brasileiros
que foram "exportados" em busca de refúgios mais seguros e menos tributados e torná-los novamente produtivos para o desenvolvimento brasileiro.
Este "círculo virtuoso" demandará um enorme esforço de planejamento, de engenharia e de educação, mas ainda está ao alcance da Sociedade Brasileira. É preciso parar de pensar que crescer é pecado.
O autor é presidente da Engevix Engenharia , vice-presidente da Associação Brasileira de Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib) e ex-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Industrial (Abemi) O País tem excelentes projetos, mas não inspira credibilidade aos investidores.